sábado, 24 de dezembro de 2011

Fale com os homens

Fale com os homens. Vá ter com eles
Olhe-os. Ouça-os. Sinta-os.
Volta. Sua casa está cheia de coisas
Pra que tanta coisa?
Os homens fizeram essas coisas

Pensar sobre o homem é do homem
Ter um negócio pra registrar isso também
O homem é tanto e tão pequeno
O homem mata com os remédios que inventa
Ele se cura com os venenos que o encontram

O homem nasce e mama: está privado da placenta
 Ele brinca com o mundo real: não pode mais só imaginar
O homem chora: agora precisa lutar pelo que precisa
O homem gargalha: como são bobos e sérios
Os desenhos animados são mais animados, mais sérios

O homem faz ponte e instalação: precisa de ambas
O homem faz lei e poesia e as leva a sério
O homem acende vela pra Darwin: que que tem?
Pinta pedras, manda cartas, telefona e cria perfis
Quer ficar só, ser ignorado, ensimesmado 

O homem é limitado: cabe num A4
O homem é vários, trem complicado
O homem se inventa e acredita no inventado

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Trinta anos

Tô fazendo trina anos. Conforme o dito popular, quem tem ânus tem medo. E, quanto mais, mais medo. Mas tô cum medo não. Só temo não saber o que fazer quando vir alguém que amo chorar. Temo vacilar mais do que possa corrigir depois. Temo um dia dizer pra mim: é assim mesmo, tem jeito não. Temo esquecer quem fui e esquecer de procurar quem nunca fui, mas quero ser.
Meus trinta anos se foram e eu tava lá pra ver. Desses primeiros trinta, lembro nada dos dez primeiros. E todos os dias acordei querendo viver, nem que fosse pra sentir vontade de morrer. Das escolhas que fiz, errei num monte. Mas escolhi. Eu escolhi. E meus erros, como o próprio nome diz, foram meus. E como é bom ter seus próprios erros. São seus filhos. Não tive filhos... ainda. Talvez nunca os tenha. Mais um erro? Não sei.
Pensei muito. Mais do que fiz. Mas pensar sempre me fez um bem danado. Cheguei a pensar que pensar era minha maior virtude. Muitas coisas que pensei não falei. Falei algumas coisas que não pensei. Noutras calei, mas meu silêncio diz um monte. Aprendi a fazer cara de “claro que não”. Ô mãe, desculpa o tanto de porta batida até o portal querar.
Carlos, Eduardo, Carlão, Duda, Dudu, Cadu. Apelido mesmo só Mestre dos magos Fui um monte de gente. E fui mesmo. Pode não? Meus heterônimos foram dados prontos. Morra de inveja, Pessoa.
Conheci um tanto de gente legal. É legalzin não. É gostar mesmo. Se já te chamei pra tomar uma, é por gostar de você. Se me chamou e eu fui, foi pelo mesmo motivo. Há muito não faço o que não é obrigatório por obrigação. Se não atendi sua ligação, releva: foi por você. Tava bem não, tava paia. Agradeço por entender o silêncio, por discutir, por me chamar de ridículo, por rir sem graça ou constrangido.
A calma de minha mãe, o sarcasmo de meu pai, a vontade de mandar tomar no cu dos dois elevada a alguma potência não poderia dar em boa coisa. E eles fazem tanta parte do que sou e nunca tiveram a menor idéia disso. Minha mãe nem sabe o quanto admiro essa vontade que ela tem de ajudar aos outros; meu pai há muito não está aqui pra saber o quanto curtia as tiradas sarcásticas que fazia (nisso eu mando bem!, quem me conhece sabe – às vezes dá até dó). O gosto do velho pelo Brizola deu num marxista meia-bomba que acredita na revolução do proletariado.
 E, apesar de tudo, continuo aqui. Neste planeta, ô planetinha danado, viu! E ter tanta gente que para e ouve as bobagens que falo (sim, mais de dez é muita gente!) É bom. Se fez ou deixou de fazer algo por mim, faço parte da sua vida. Se fiz ou deixei fazer algo por você, sou um pouquinho de você.
Mas ó, cabou não. Tamo junto! Tá começando de novo. E agora vai ser melhor.


segunda-feira, 23 de maio de 2011

Oração – A Banda Mais Bonita da Cidade. Uma análise.

Certa vez, conversando com um grande amigo de segundo grau, que cursava Artes Cênicas, confessei meu incômodo, meu sentimento de ignorância quando observava alguma obra de arte abstrata, cifrada etc.  Então ele, sempre observando as coisas com um olhar inteligente, prático e sensível, disse-me mais ou menos isso: - Cadu, não tem um modelo, um jeito certo, é o sentimento, a impressão que lhe causar, é isso. Beleza. Fiquei mais tranqüilo e me permiti contemplar as obras sem sentir culpa por ser um ignorantão. Não há, portanto, um jeito certo de analisar as produções artísticas, mas elas deixam algumas pistas que aprendi a observar e quero compartilhar com vocês as minhas percepções sobre esta música. É o último sucesso da rede e, ao que me lembro,uma das poucas que não são toscas.
Fugindo da eterna e estéril discussão sobre a possibilidade de analisar letras de músicas como poesias, irei expor as minhas impressões sobre alguns elementos audiovisuais e textuais do vídeo postado – mais que uma música com letra, é um vídeo da internet  e isso exige mais esforço e abertura do crítico do que costumeiramente estamos dispostos a aceitar. A primeira imagem é a de um rapaz com uma tentativa de barba no rosto, um cabelo meio bagunçadinho, olhando por uma janela, a qual apresenta uma paisagem que remete à cidade de Ouro Preto – MG, uma república, ou qualquer outra cidade classificada por nós como “histórica” (como se as outras não fossem), ele segura algo parecido com um tablet e tem uma cara boa, de quem acha que “viver é mais que isso”, e traja uma roupa de ficar em casa. A empatia inicial entre artista e público está estabelecida, claro que com um determinado público que se identifica com o perfil imaginado. A voz dele não ficaria entre as vinte de qualquer programa televisivo que caça talentos musicais. Essa voz “comum” aproxima ainda mais. Os primeiros versos trazem vocábulos familiares e afetivamente simpáticos ao público: meu amor, oração, salvar, coração. Oração é algo que só fazemos a quem consideramos seres superiores, capazes de nos trazerem alguma salvação, com poderes supra-materiais, como é quem se ama pra quem ama. Além disso, as orações, via de regra, repetem, como se o destinatário precisasse entender a mensagem ou a importância dela – a música faz isso. E, didaticamente, tenta explicar como funciona o HD do coração. Fala ainda em salvar “seu” coração quando o desenrolar da canção evidencia que o coração a ser salvo é o do eu lírico.
Uma outra proposição da música é a separação entre o que se pode comprar, o que cabe na dispensa, e o que não cabe, não se compra, o “meu amor”. O que é mais importante? O ouvinte reflete e é aí que a música começa a cumprir um dos papéis da arte: provocar a reflexão. Reflexão rara em tempos de consumismo compulsivo: preciso de tal coisa urgente! Um controle de videogame sem fio ou uma bolsa com tais detalhes. O vídeo acaba por provar que viver é mais do que conseguir comprar coisas. A utilização de “penteadeira” tem a curiosidade de remeter a um equipamento doméstico fora de uso, talvez desconhecido por grande parte dos usuários da internet, composta por adolescentes, mas justificável pela idade que aparentam ter os músicos da banda. E essa penteadeira pode ainda ser um conjunto de adereços embelezadores, dispensáveis ao olhar de quem está apaixonado, pois estes acham espinhas e manchinhas detalhes charmosos. “Cabe até o meu amor” diz que o amor é muito maior do que todas as outras bobagens mencionadas, o amor sim é grande, grandão, e ainda assim cabe no coração.
Retornando ao vídeo, ele tem uma clara semelhança com este, também muito repercutido na web. Apesar da referência citada pela banda ser este.  Têm alguma relação? Inspiração, cópia, referência? Não importa. O que importa é que a impressão causada por pessoas construindo coisas juntas agrada. Se elas estiverem felizes e forem jovens, então nem se fala. Claro que o vídeo da banda é mais legal. Mas num mundo de amizades virtuais, de afinidades compiladas em comunidades, ver um monte de gente com cara de legal curtindo juntas causa uma inveja instantânea: - Queria ter uma galera dessas. Já deu, né? Beijo pra essa tchurma (http://www.myspace.com/abandamaisbonitadacidade/music) . Que venham os próximos! Bem-vindos, A Banda Mais Linda da Cidade! Agora fodeu, queremos mais. Se não for a mais linda, é a mais fofa do momento.            

domingo, 8 de maio de 2011

Pra não morrer

Achismos. É só pro Google não deletar. Eles disseram que vão excluir o que não estiver sendo usado.
Passei um tempo querendo mudar o mundo. E ainda quero.
Passei um tempo querendo ser professor. E ainda quero.
Passei um tempo querendo mudar o curso do rio chamado Vida. E ainda quero.
Passei um tempo acreditando em Deus. Não acredito mais, mas se ele for como O deus deve ser, me entende, mesmo que eu não concorde com a sua postura. Ainda esses dias, após muito tempo, tive uma conversa séria com Ele, como tinha antes, quando conversava com Ele e comigo, simultaneamente-ao-mesmo-tempo, e disse: Você sabe que eu sou do bem, mas fico muito, mas muito, puto com a sua negligência, inoperância, indiferença, quase sadismo, com relação aos rumos e estupidezes dos homens, bem como às manifestações escabrosas da natureza, que tá putinha com a gente e quer, porque quer, provar que é mais forte que o homem, e ainda insiste em não explicar as razões de judiar tanto de um povo (como faz com os africanos). Se é vou ver no que que dá, não vem com esse papinho de estou em todos os lugares ao mesmo tempo e as coisas só acontecem se eu permitir
Passei um tempo querendo ter superpoderes. Seria legal. Queria voar e soltar raios, fumaça de bom senso, respeito, inteligência, solidariedade e bom humor (deixo claro que quem tem inteligência mesmo é solidário, respeitoso, tem bom senso e bom humor).
Passei um tempo me sentindo culpado por gostar de música sertaneja, pagode e funk – claro que nem tudo presta – e de outras coisas populares. Em tese, do que o povão gosta é pobre e alienante: é nada! Quando a Adriana Calcanhoto gravou “Fico assim sem você” todo mundo achou legal, bem como o Caetano com “Sozinho”, Maria Gadu com “Baba baby” etc. Uma das idiotices do ser humano: parametrizar sua opinião, seu gosto a partir das orientações de seus ídolos (seres superiores). Sempre gostei deles. Parece que uma elitizinha de merda quer ter exclusividade no acesso à arte, no dito bom gosto. Eu não gosto de bom gosto, mas adoro o bom senso. Fazer arte é inerente ao homem (e não me encham o saco por usar “homem”). É necessidade, é o que nos faz suportar a vida, é o que nos faz sermos humanos, não é a racionalidade não. Bora ouvir essas canções de amor, essas sacanagens que são a nossa cara, esses ritmos tão sedutores e brasileiros, vamos falar mal quando não houver criação, inventividade, trabalho (arte é trabalho, muito trabalho. Lembre-se de quando tenta decorar algum ambiente, escrever alguma coisa pra alguém, desenhar, fotografar, editar, interpretar, etc). Ela, queira ou não queira, está em nosso dia-a-dia.  
Ainda continuo julgando as pessoas pela cara, pela impressão. Erro muito pouco, cinco por cento, no máximo. Continuo acreditando na boa vontade da maioria, encantado com a simplicidade e inteligência dos mais velhos (já reparou como eles fazem o que querem? Tão nem aí. Massa!). Continuo me surpreendendo com o humanismo, criatividade e ineditismo das crianças (nos sentimos quase ameaçados por elas, não é? Fico temeroso também com as barbaridades e as provas que nos dão de que o homem só se torna sociável por meio do processo de doutrinação ao qual são submetidos).
Continuo acreditando que ainda andarei em um carro voador (não deu tempo pro ano 2000). Fico de cara com a nossa capacidade de inventar coisas. Até hoje não entendo o telefone, o fax, o sinal da TV, acho incrível, acho foda. Assim como acho foda um monte de outras coisas que descobrimos, inventamos, construímos. Tenho uma fé quase religiosa na nossa capacidade de assegurar nossa sobrevivência, por isso duvido do fim do mundo. Malgrado reconheça os absurdos que cometemos a todo instante, tento me convencer, questão de suportabilidade, de que nossas virtudes superam os vícios (não no meu caso, é claro). A expectativa de vida subiu absurdamente. Brigamos pela diversidade, defendemos espécimes de sapo em extinção como se fossem nossa própria vida, mas ainda somos indiferentes aos que estão morrendo de fome – muitas pessoas, mas muitas mesmo, morrem de fome neste país e neste planeta de desperdício, egoísmo, soberba e esnobismo. Eu ainda me incomodo mais com quem não come, logicamente não estuda e está condenado, desde seu nascimento, à derrota.
Adoro discutir coisas que não vão levar a absolutamente nada. Acredito que sou mais contundente nesses casos. Rendi-me à internet e sou devoto do Google. Impressiono-me todo dia. Fico pensando o que fariam grandes pensadores que tivemos com acesso a tanta informação ao alcance de um clique e, ao mesmo tempo, fico puto com o fato das notícias mais lidas, via de regra, serem bizarrices, bobeiras, vida das celebridades, eu também leio essas coisas, é claro. Mas acredito no poder da conectividade, da anarquia, do protagonismo, da pluralidade, liberdade da rede. Ainda que não seja realidade para muitos, acredito que em breve teremos a TV Chaparral, Santa Maria, Águas Lindas exibidas por um canal no Youtube, feito por pessoas que são de lá e nunca puderam expressar suas ideias.
Continuo sem conseguir fazer metáforas criativas, esbarrar em achados esclarecedores. Não sei nomes de plantas, bichos, ruas etc. O máximo que consigo são sacadinhas do tipo: Não temos mais tempo, nem paciência, para romances, apenas crônicas e contos.
Queria poder dizer, de uma forma didática, inteligente e bem-humorada, pra todo mundo, que o mundo pode ser um lugar mais legal de viver. E olha que pode ser doido, massa, do caralho, show, batuta, joia, arretado, tri-legal, coisa-linda-de-deus. Ainda acredito no “faça sua parte”.
Continuo querendo fazer postagens frequentes e curtas e continuo sem conseguir. Escrevi há pouco tempo, pensando em tecelãs cantando, o seguinte: “Bora, bora, bora se cuidar da gente/ Gente, a gente só tem a gente.”Repete.
Beijos! Inté. Aqui ou no novo blog.   

terça-feira, 27 de julho de 2010

Édipo Gay

Certa feita, Laio, presidente da maior potência mundial, jovem e solteiro, pressionado pela opinião pública, resolveu atender ao apelo de mostrar-se um homem de família: casou-se com Jocasta, senadora e influente junto à igreja por sua fé, conduta e obras altruístas. Uma super-festa, fotos, muitas fotos e notícias até saturar o assunto. Aparentemente perfeito, todos satisfeitos, aumento da popularidade junto aos tradicionalistas cristãos que, apesar de agirem como consumistas, fúteis, hedonistas, patricidas e sangue-sugas, são fiéis aos valores do velho e novo testamento das sagradas escrituras.
O segundo passo era o óbvio, quem é casado e ainda não procriou sabe muito bem como é, tiveram um filho. Místico que era, especialmente depois que pesquisadores comprovaram, cientificamente, a veracidade das previsões mediúnicas, levou o bebê a um dos mais famosos espiritualistas do país (oráculo para os gregos e pai-de-santo para nós). Qual não foi a surpresa quando ouviu a revelação de que seu filho mataria a mãe e teria um relacionamento homoafetivo com ele. Dado o absurdo da informação, preferiu desconsiderá-la.
Laio ainda teve mais um governo, sempre muito popular. É aquele tipo de liderança de país imperialista que consegue a simpatia dos explorados por parecer estar ao lado deles e posiciona-se contra os grandes capitalistas – claro que na prática faz tudo que estes querem. Depois afastou-se da presidência e foi, grande homem que era, servir aos organismos internacionais em missões de auxílio ao resto do mundo, sempre carente de inteligências próprias. Seu filho, Nick, cresceu e já estudava na melhor universidade do país a Fuking The World Universit, pelo sim, pelo não, mantinha-o bem longe. Mas as pessoas de maior sensibilidade percebiam que Laio, apesar de ter alcançado tudo que almejou, trazia no olhar uma tristeza, como quem carrega uma falta, um desejo reprimido.
Em sua majestosa atuação internacional, foi ministrar uma palestra para representantes da juventude de diversos países: Como escolher democraticamente a parcela de seu país que irá ser privada de água sem comprometer a disponibilidade de mão-de-obra. Quando autorizaram as perguntas, um rapaz de características físicas muito parecidas com as suas, o que o fez achá-lo belo, formulou uma questão muito interessante, dessas que permitem ao palestrante exibir todos os seus conhecimentos e ainda simular uma humildade dizendo que realmente a pergunta foi muito boa etc. O rapaz era oriundo de um país do Oriente Médio e chamava-se Édipo.
Após a apresentação, o tradicional coquetel. Édipo procurou Laio, por quem foi muito bem recebido e os dois conversaram muito sobre as diversas questões socioambientais que sempre propiciam discursos nobres, comprometidos, vibrantes. O evento acabava, mas a conversa estava muito boa, foram para um restaurante, desses discretos, caros, aconchegantes. Lá pelas tantas e alguns vinhos a mais, o rapaz, sempre ousado, faz o indecoroso convite de irem para um lugar ainda mais discreto, onde pudessem ficar realmente à vontade para continuar a conversa. Naquele momento, instantes de segundos que parecem uma vida, a vida de Laio passou por sua mente e aquele convite parecia ser a resposta para o vazio que sempre o acompanhara, no impulso, topou. E a noite foi a noite.
Encontros furtivos continuaram acontecendo, sempre muito difíceis, Édipo encontrava sérias restrições para entrar no país de Laio, sua nação era dessas que hospedavam grupos de resistência (terroristas?) contrários à intervenção da pátria de Laio, que tentava ensinar ao seu povo os tão sublimes valores democráticos.
Como sempre após a abonança vem a tempestade, Jocasta, que também atuava em ações humanistas internacionais, foi sequestrada por um dos grupos ativistas do país de Édipo. Exigiam o fim da intervenção, bem como a liberação dos presos de guerra etc. Deram um prazo, nada de resposta, em rede mundial, a ex-senadora foi executada por um homem encapuzado. Este homem era Édipo.
O grupo de Édipo passou então a sofrer muitos ataques e perseguições, parecendo que iriam sucumbir a qualquer momento. Desconfiaram de infiltrações, como o nosso herói nos últimos tempos vinha apresentando um comportamento suspeito, passou a ser monitorado pelos próprios companheiros. Os encontros com Laio continuavam, inclusive consolando-o pela perda da companheira, por outro lado estavam livres para vivenciar a relação, cada vez mais intensa, cúmplice, apaixonada. Claro que os investigadores descobriram tudo, fotografaram, filmaram. Em rede mundial, divulgaram tudo, fora o caos natural da situação, ainda acrescentaram a informação de que Édipo era filho de Laio, fora trocado na maternidade por integrantes do grupo Al-Alá, no intuito de provar a falibilidade da superpotência que sequer consegue proteger o filho do presidente. Apresentaram tudo que comprovava tais informações. Com o namoro, a operação tinha sido melhor que a encomenda.
Laio suicida-se imediatamente. Édipo faz cirurgia para mudar a aparência, no processo cirúrgico perde a visão. Refugiou-se em algum país até hoje não revelado.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Sobre a Copa, a Copa da/na África do Sul

Fiz este post antes da derrota de hoje, depois falamos sobre isso, não estou emocionalmente apto no momento.
O futebol já foi atacado como sendo o ópio do nosso povo, o nosso circo do “panis et circenses”. Eu mesmo já cansei de prometer a mim mesmo que não ia mais torcer, que esse negócio é só alienação, e agora é só um negócio. É pra fazer com que esqueçamos os reais problemas – a desigualdade social não tem problema, mas sim o Mengão, meu time de coração, perder. Não consigo deixar de ficar triste quando o Flamengo perde, mas nem por isso deixo de me incomodar, dioturnamente, com os nossos problemas econômicos, sociais, ambientais, humanos.

A Copa na África do Sul, muito além do futebol, traz imagens, situações, falas, que provocam reflexões inevitáveis. Primeiro, chama a atenção o fato de uma parte muito considerável da humanidade parar máquinas, dores, rixas, ressentimentos e se reunir (unir já seria demais!) para... brincar! Ora, o que é esse campeonato senão uma brincadeira, um espetáculo, uma diversão protagonizada pelos jogadores e vivenciada por todos que assistem. Mas o curioso é como levamos tão a sério, é uma prova do quão ser humano é mais que trabalhar, comer, dormir e reproduzir. Somos o Homo ludicus, às vezes até demais, poderíamos ser o Homo Solidarius, o Homo libertus, definitivamente não ao Homo Belicus. Pena que o engenho e a arte estejam por conta apenas da Argentina.

Mas - sempre tenho um mas - a festa e a imagem de integração de povos e culturas, loiros, olhos puxados, negros, morenos, todos tratando-se com aparente respeito, não pode fazer com que esqueçamos que há muito pouco tempo, pouquíssimo tempo mesmo (final do século XX!) ,tínhamos naquele país algo que faz com que tenhamos vergonha de fazer parte dessa espécie: o Apartheid.

Imagine que trogloditas armados invadam a sua casa, estuprem sua mulher e suas filhas, obriguem seu filho e você a trabalharem para eles, roubem tudo o que tinham e depois ainda fiquem lá, convivendo com vocês como se esta situação fosse normal. Além disso, o proíbem de usar o mesmo banheiro (só quando for lavar a sujeira que fazem), a mesma cozinha (só quando for cozinhar para eles), não os deixam estudar, apenas trabalhar, trabalhar, trabalhar para eles. De comida apenas os restos mínimos para a sobrevivência. Afirmam todos os dias que são superiores, são provenientes da civilização e estão auxiliando vocês, selvagens, a se tornarem um pouco melhores; na verdade estão lhes fazendo um bem. E o resto do mundo fazendo que não via. Onde estavam os justiceiros da humanidade, aqueles que não toleram afrontas aos direitos humanos em outros países, lutam pela democracia em qualquer canto deste planeta? Será que é porque já estavam sendo cuidados pelos ingleses, grandes parceiros dos norte-americanos em suas empreitadas? Interessante notar que acabaram de “achar” minérios, cobre etc (um trilhão!) no Afeganistão, que coincidência não?    

A imagem do francês, capitão do time, negro, chorando durante a execução do hino do seu país talvez queira dizer mais que um patriotismo comum. Talvez seja uma mistura de sentimentos, a sensação de, diante de tantos negros iguais a ele, ter voltado pra casa, pra casa da mãe. Mas ao mesmo tempo se sente um francês, nasceu na França. Faz parte de outro povo, mas não deixa de correr em suas veias o sangue da gente do país sede, e talvez passe rapidamente por sua mente a lembrança do tanto de sangue que seu novo povo derramou do seu povo originário, em segundos tenta apagar essas sensações, mas mente e coração não sabem o que fazer nesses casos e então chora. O mundo deveria refletir sobre o que fez com as pessoas daquele continente, pela primeira vez conhecê-lo, não como algo exótico, como bichos interessantes que vemos no zoológico, mas como pessoas com história, cultura e visão de mundo próprios; aprender com eles e não querer impor seu modo de ser.

Vou encerrar por aqui pra não ficar demasiadamente cansativo. Que o Brasil resolva jogar e ganhe esta Copa, a nossa seleção que é majoritariamente negra, filhos que voltam pra casa e trazem alegria, esperança, orgulho para o povo que constitui a maioria de nossa etnia. Que venha um novo tempo, tempo de mudança, vingança não, mas que lutemos por justiça e a igualdade verdadeira, a igualdade de oportunidades, a redistribuição do que foi furtado, Bob Marley, Zumbi, Mandela e todos aqueles que desejam habitar um mundo mais justo e livre esperam por isso. Que na próxima Copa na África tenhamos mais a celebrar e menos com o que nos indignar

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Dica da Dad

Aproveitando o sucesso do post anterior, vamos a mais um (prometo que é o último assim!).

Tem uma eminente professora de português que fica dando (ou a dar) dicas gramaticais, como escrever o “bom português”, diga-se de passagem o português da “norma culta”, como se o outro, o falado pelos brasileiros reais, não tivesse cultura. Aí ela tem uma coluna no Correio Braziliense (braziliense com “z”? ah isso pode, eles têm “licença midiática”), tem programinha na tv local, tem livro, só não tem mais o que fazer. É a Pasquale do Cerrado, outro que também não tolero.   

Nada contra minha própria categoria, mas a ilustre professora me irrita. Ela fala num tom cansativo, tentando ser simpática, parece uma socialite fazendo ação social abraçando criança subnutrida, sem camisa e com catarro, fazendo uma cara de riso e nojo ao mesmo tempo. Então resolvi dar um dica de como ser um pouco menos chata, utilizando um vocábulo bem comum no dia-a-dia da população: merda.

Em uma rápida lição, pretendo demonstrar como uma mesma palavra pode ter diferentes classificações morfológicas/sintáticas.

Interjeição: Merda! Que merda! Puta merda!

Você é um merda! Sintaticamente, núcleo do predicativo do sujeito. Morfologicamente: adjetivo.

Vá à merda! Neste caso, acho interessante também explicar o uso da crase: quem vai a merda, volta da merda, crase há. No mais, adjunto adverbial de lugar.

Olha a merda que tu fez. Quem olha olha algo ou alguém, objeto direto. Na norma culta deveria ser: Vedes a merda que tu fizestes.

No teatro: Merda pra vocês! Neste caso o que mais interessa é explicar a origem da expressão. Certa vez, na Inglaterra antiga, a rainha foi assistir à estréia de uma comédia. Num determinado momento, A Majestade não se aguentou de tanto rir e foi ali mesmo. Após o ocorrido, todos quiseram assistir e foi um sucesso absoluto. Mentira, eu que inventei essa bobagem.

A merda toda é deixarmos fazerem por nós. Sujeito. 

Tá. Este post ficou uma merda, “ta baixando o nível, Cadu” . Só brincadeirinha pra não pirar, gente! Outra dica, Dad: die!