quarta-feira, 3 de junho de 2015

Pra cria

Neném, o mundo no qual você vai nascer não é exatamente aquele no qual o papai queria que chegasse. Explico a seguir.
O noticiário recente informa que houve atos de terrorismo praticados por fanáticos religiosos (se é que “fanático religioso” não é uma redundância). Alguns correligionários de grupos terroristas, os quais têm no Islã sua base de apoio teórico, mataram jornalistas (de um jornal satírico francês) dizendo que estariam vingando Maomé.
Olha, papai não curte religião nenhuma, daqui a um tempo você vai ver o quanto isso é difícil pra quem pensa assim. Por isso, mas não só por isso, achei um absurdo tal ato. Esse fato serviu para reforçar ainda mais minha crença de que as religiões fazem as pessoas fazerem coisas insanas, porque as religiões, em si, são insanas. Mas você pode ter a crença que quiser, vou respeitar. Essa é a primeira coisa que quero lhe ensinar: não importa o que você acha certo ou errado, todos podem crer, fazer, pensar, amar ou odiar o que quiser, você deve aceitar, respeitar, tolerar é muito pouco. Cada um faz da vida o que quer. Além disso, e por isso também, você não deve admitir nenhum tipo de interferência ou imposição sobre suas ideias e crenças.
Filho, tá faltando água. Aqui no nosso país tem um monte de água, mas não necessariamente no lugar em que os seres humanos precisam para poder consumi-la. Aliás, no nosso Brasil tem um monte de coisas e ideias fora do lugar. Não se acostume com isso nunca, tente sempre ajeitar, mesmo que essa tarefa pareça impossível. Desistir não nos cai bem. Desistir é paia, filho. Deixa o que tiver aí dentro falar, que o teu impulso seja o teu guia.
Tem aumento de impostos, de juros, de tudo, menos do salário do papai e da mamãe. A Dilma venceu, votei nela. Não havia a opção “correta” na urna, foi o que deu pra fazer. Ainda estamos num estágio de evolução no qual pra ser um candidato com alguma chance de vitória tem que ser meio mau caráter.
Também saiu uma pesquisa dizendo que em 2016 o 1% mais rico da população vai ter 52% da riqueza do planeta. Filho, isso é o maior mal desse mundo! Não ache isso normal nunca, por favor! A desigualdade é a causa de quase todos os males da humanidade. Você não vai consertar isso, mas nem por isso vai deixar de lutar pra mudar essa realidade absurda!
A violência tá bombando por aqui. As pessoas matam por qualquer coisa. Não comprarei arma alguma. A nossa defesa será o amor, a palavra, afinal, a agressão e a estupidez não devem prevalecer. Ainda que estejam por aí se impondo, não ceda a elas. Nem eu, tampouco sua mãe, jamais nos deixamos levar por esses sentimentos típicos dos covardes e arrogantes.

Filho, Brasília continua com um céu lindo, tem um monte de gente legal tentando construir um mundo melhor. Tem mais pessoas com mais acesso a bens de consumo essenciais. A arte continua necessária. Viver, filho, é uma experiência muito louca, intensa, uma dádiva e uma carga. Não posso prometer que será feliz (gente feliz demais tem algum problema! Opinião do pai), mas digo a você, cria: estou aqui! Conta comigo, cara! Seja o que quiser, mas, imploro, seja uma pessoa massa! Nem o conheço, mas já o considero pacas, seu feto fofo!

Ser 44 ou cinza é uma bosta.

É oito ou oitenta! Ou é preto ou é branco! E se não? E o que falar dos que são 32, 52 ou 44? Qual o lugar do grafite, do prata, do dálmata ou do cinza? Detesto quem não se posiciona. Mas, necessariamente, temos que aderir a uma das posições extremas oferecidas? Só existem elas? Certamente não. Sim, você já adivinhou, vou falar sobre essas paradas que estão rolando.
Pensando nisso, não ecoar o discurso do “Fora Dilma” não faz de você um PTralha. Criticar o governo ou achar que as pessoas podem ou devem protestar quando insatisfeitas não faz de você um tucano, coxinha, adepto da oposição ou golpista.
“- Tá. Então de que lado você está?” Quem?! Eu?!
Não, eu não estou “do lado do Brasil” (seria muito arriscado apoiar um conceito tão aberto, impreciso, genericamente associável tanto ao seu potencial agropecuarista, quanto à quantidade de reservas naturais preservadas; tanto ao seu caráter extremamente tolerante, quanto à realidade violenta e preconceituosa; tanto ao pôr-do-sol, quanto ao noroeste etc.) . Tampouco estou do lado da “mídia oficial” (a Globo, a Abril, a Band, os Civitas, a Record, o Correio Braziliense, ou qualquer outro grande grupo de comunicação do país ocupa lugar minimamente afetuoso ou respeitoso do meu coraçãozinho). Menos ainda apoio os interesses egoísticos das elites nacionais “que há mais de 500 anos saqueiam as riquezas e os espoliados desta terra” (acho nossa elite preguiçosa, incompetente e colonizada demais, também acho que a nação brasileira é bem mais jovem, se é que efetivamente ela já se formou; pra mim, tem cento e poucos anos que estamos de fato tentando construir um projeto de país). Juro que não sou a favor das intenções imperialistas veladas que operam (?) por aqui (sobre isso não irei comentar nada, espero que entendam a minha incapacidade em argumentar contra proposição tão insubsistente).
Também não sou um “governista alienado” (achar o máximo os avanços sociais implementados pelo governo petista nos últimos anos não faz de mim um filiado pago ou um ingênuo útil). Nem diga (se quiser dizer, também, tudo bem) que sou um esquerdistinha dissimulado (seja porque o PT não é um governo de esquerda, seja porque não me furto em afirmar que sim, sou adepto aos valores historicamente defendidos por essa corrente, seja porque estou muito distante de muitos autointitulados esquerdistas, seja porque acho a direita cínica, sem graça e cretina ao afirmar que o sucesso é uma questão de mérito, dentre tantas outras coisas).
Acabo de perceber que, ao tentar dizer o que sou, estou, na verdade, dizendo o que não sou. É uma possibilidade.
Em síntese, não estou ao lado de nenhum dos dois únicos lados supostamente existentes. Adoro o povo na rua, não interessa que povo é esse, acredito que o direito à livre manifestação é um valor essencial à democracia, à liberdade, à convivência harmônica entre os diferentes. É claro que essa liberdade tem limites, em especial aqueles referentes ao direito de outros grupos sociais a não serem agredidos (não acho aceitável uma manifestação que defenda o racismo, o ódio, a intolerância etc.). Mas sair na rua e dizer que está puto com o governo, com a corrupção (por mais bobo que isso pareça ser) ou com a presidenta é, sem dúvida alguma, legítimo (viu?! usei “sem dúvida alguma”, não sou tão vaselina assim).
Agora, querer retirar, na marra, uma pessoa legitimamente eleita pela maioria dos brasileiros (53 milhões de pessoas votaram nela, inclusive eu), não me parece pertinente. Não que as pessoas não possam pedir isso, apenas não acho que seria algo bacana, tranquilo, é assim mesmo, "vamos dar uma lição nessa corja". Temos regras. Aliás, só por isso somos da mesma galera. Essas regras foram combinadas antes do início do jogo. Estar insatisfeito com um governante não possibilita a deposição do mesmo. No parlamentarismo isso seria dentro das regras, sabia? Mas a gente nem discute essa possibilidade. Queremos mudar o jogo enquanto ele está rolando e não cogitamos mudar as regras para que o próximo seja mais de acordo com o que pensamos.
Como diz Paulo Queiroz, problemas estruturais exigem soluções estruturais. E não vi, pode ser que tenha existido, nenhum cartaz denunciando ou discutindo o sistema em si. Eu vi o Collor ser demitido (tinha 11 anos na época, não sou tão velho assim) e acreditei que aquele exemplo serviria para todos os pretendentes a governante deste país, afinal, o recado era claro. Pra contradizer isso (a história às vezes gosta de bater na cara), o líder dos “cara-pintadas é um dos investigados na operação lava-a-jato.
Reclama, gente! Desabafa! Mas não esqueça que há regras. Essas regras não são simples defesas dos picaretas, são garantias essenciais ao saudável funcionamento da democracia (conquistada por nós a tão duras penas).  
Então assim: respeita o coleguinha, ele tem direito de pensar o que quiser; mas não se cobre “ter um lado”. Não existem só esse lados aí não. Haverá quantos lados quisermos.

Ah!  Qual é o meu lado?! Xiiiii, você não entendeu foi nada!  

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Sobre o Brasil e Chile (só escrevi sobre esse jogo! Eu acho...)

Sou da galera das lágrimas. Choro por qualquer duplo twist carpado, por qualquer perseverança altiva diante da limitação imposta, por qualquer câmera que se aproxima, calculadamente, dos olhos marejados do indivíduo filmado. Claro, na penumbra do cinema, sozinho em casa ou no vendaval de poeira, fico mais confortável. Mas choro quase com a mesma naturalidade de quem sorri. Mas o riso, ainda que sem sentido, goza do prestígio; enquanto ao choro só recompensam com desprezo. Por quê? Sei lá! Seria, no mínimo, leviano tentar explicar o choro dos nossos atletas a partir de uma análise do que supostamente compõe o caráter nacional, bem como o seria um exercício contrário. Ando muito desconfiado de todos os conceitos generalizantes acerca de quaisquer corpos sociais (exceto do caráter perverso do modelo de exploração do homem pelo homem adotado por nós). Então irei comentar apenas superficialmente sobre algumas impressões minhas, excluindo a evidente analogia com os jogadores de 50, os quais até seus últimos dias tinham pesadelos com o fatídico jogo do “maracanazzo”.
Quando fomos para os pênaltis, talvez também pela dramaticidade da situação agravada pela bola na trave no finalzinho da prorrogação, tive meus olhos tomados por um líquido conhecido (tentei segurar, mas queria mesmo era berrar, pular na minha cama e enfiar a cara no travesseiro, encharcá-lo, não pude). Nem vi, naquele momento, a posição do nosso capitão, tampouco as lágrimas prévias do nosso goleiro. Passou um filme na minha cabeça. Era parecido, imagino, com o que passou na sua, na de tantos outros brasileiro, inclusive, pasmem!, no imaginado pelos jogadores. Nosso país adora futebol. Não importa se isso nos faz piores ou melhores, é um fato. Aí a festa é aqui, o maior evento do futebol na nossa casa, depois de tudo o que nos custou (em todos os sentidos), tá lindo, a festa tá massa! Todo mundo curtindo, não tenho por costume ser um dos primeiros a ir embora. Vi, de forma muito clara, a possibilidade de ser expulso, convidado a sair da festa que tanto esperei (eu esperei e quem não queria passou a achar o máximo). Pensei na nossa gente toda, nas nossas crianças, nos nossos adultos tão felizes, infantilmente alegres e entretidos, tendo que apenas observar a galera alienígena brincar com a nossa bola, a brazuca. Não é justo, pensei, mesmo resignadamente sabedor do pouco compromisso da vida com a justiça, clamei por ela (como se os chilenos também não merecessem essa alegria, mas isso é outra história). Poxa, quero brincar pelo menos mais um pouco!
Vieram as cobranças (já sabemos como foram) e... passamos! Podemos ficar mais um pouco! O episódio teve um final feliz, um alento redentor! O peso do mundo saía, abruptamente, de nossas costas. Um choque de emoções desses não justifica um chorinho de alegria, de alívio, de vitória, de puta que pariu a gente ganhou, caralho!? Problema emocional tem quem acha que isso não é motivo.
Quanto ao nosso capitão, sempre achei que seria uma puta atitude o cara que não estivesse se sentindo seguro para cobrar um pênalti dizer, corajosamente, que não quer bater. Alguém acha que foi fácil pra ele tomar aquela decisão? É tranquilo dizer pro mundo inteiro que está se borrando todo diante da pressão? É óbvio que não é. Não foi pro Thiago. Thiago foi um gigante, mas tratado como um rato. Ele me representa muito! Mas ele é o capitão! diz o estúpido condicionado a acreditar que o líder é aquele ser autoritário, sem emoções, inabalável (ser escroto não é um traço de liderança, precisamos rever isso).
Se não chora é um mercenário que não entende o que é defender a seleção brasileira. É muita xaropice pra um povo só, meu deus!
Estou pronto pra chorar de novo. Ganhando ou perdendo, eu quero é chorar, sentir, viver, estar ali, experimentando, até o último segundo que a bola nos der, a nossa copa.
Valeu, meninos! Obrigado, caras! Parabéns, 11 valorosos brasileiros que são machos e fêmeas o suficiente pra dizer, em reações: queremos muito - muito mesmo! - ganhar essa porra dessa Copa pra gente! 

domingo, 10 de agosto de 2014

Dia dos garotos sem pais

Um garoto acordou perto da rodô. Talvez nem dormiu. Apagou, sucumbiu. Agora quer mais daquele mesmo.
 Não conheceu pré-escola, mas sempre desenhou bem. Como ninguém com quem convivia pensava que criança precisasse desenhar, menos ainda que desenho pudesse dar alguma coisa pra alguém daquele lugar -especialmente porque desenho é arte e ser artista é pra rico- começaram a recriminar as belas formas e curvas que fazia em qualquer lugar, com qualquer pedaço de tijolo, ou pitoco de lápis, ou qualquer coisa que riscasse. Nunca mais desenhou.
 Nunca teve bons professores, aliás, nunca teve professor algum. Nunca foi aluno. Sempre foi livre, livre pra não ser, nem sabia direito o que era esse negócio de ser.
 Tinha uma vista privilegiada da Esplanada, de seus palácios ao fundo, estava no centro do poder, dos três poderes independentes e harmônicos entre si. Não sabia nada acerca de privilégio (pelo menos não da forma conceitualmente elaborada ínsita ao termo, apesar de perceber que as crianças nas cadeirinhas dos veículos deviam ter uma vida com mais conforto do que tivera); nem entendia bem o que era poder (ainda que fosse subordinado aos garotos líderes do seu meio, à sua progenitora, ao poder microfísico), tampouco tinha ouvido falar sobre harmonia.
 Dói contar esta história, mas esse menino queria brincar como todos os meninos, ainda que não soubesse disso. Ele é uma criança contrafática, um menino-homem. Falo de uma criança de sete, talvez oito ou nove anos de idade. A sua cara queimada não faz dele menos criança, é apenas uma marca, um registro físico da sua história. 
 O leitor já deve imaginar, contudo, faço questão de anotar: ele não tem bonecos, não tem carrinhos, não joga vídeo-game e nem possui quaisquer outros brinquedos. Desde seu nascimento, permanece proprietário apenas de si mesmo, concretamente nem isso.
  Num certo dia, nosso herói encontrou outra brincadeira. Diverte-se com o crack, ser um craque, em qualquer coisa, não lhe foi facultado, menos ainda sonhar com isso. Como outros tantos garotos, talvez poderia... Nasceu privado desse direito. Reconhecida sua cara de pidão, seu destino foi escolhido: vai ser um ótimo pedinte e/ou vendedor de balas.
 É mentira que sonhar não custa nada. É impossível sonhar do nada. Os sonhos são construções feitas a partir do que vemos no real. Há um custo em ouvir, assistir, ficar sabendo de histórias fantásticas protagonizadas por personagens fictícios, porém reais para aqueles que compartilham de suas histórias. Sem duvidar ou querer fazer troça da inteligência do amigo, mas como acho essa parte da história muito importante, estou querendo dizer que a esse infante não foi permitido sonhar. Não tomou conhecimento de He-mam, Pégasus, Power Ranger, Naruto, Goku, Ben 10, Wolverine, Batman, tampouco Ulisses, Peri, Jesus, Buda, nem nenhum outro ser mitológico, metafísico fodão. Não que isso seja, em si, uma necessidade. O problema é que também não soube de nenhuma narrativa real sobre alguém que conseguiu um objetivo muito difícil. Como sempre foi tratado com rispidez, não desenvolveu sentimento algum por certa profissão (seus pais não trabalhavam, só viu médico no seu nascimento e, convenhamos, seria pedir demais que guardasse lembrança desse momento), não teve professores, policiais só o agrediram (verbal ou fisicamente, explícita ou simbolicamente), nunca soube que desenhista/pintor era uma profissão (considerando que este foi o único talento identificável no narrado até aqui, acho que pelo menos esta possibilidade deveria ter sido sugerida ao menino, mas não foi, em que pese a tristeza da constatação, isso o livrou de uma frustração, aliás, outra constatação é a de que sequer frustração ele podia ter). Só se quer aquilo que parece massa e possível, aquilo de que já se ouviu falar. Nunca acreditou ser possível voar e ter outros superpoderes.
Seu alívio imaginativo, sua transcendência do real hostil, só apareceu após o trago naquela pedra.
 Lembro que na primeira vez em que o vi ele estava pulando. Parecia ter continuado a pular, inconscientemente, depois do fim da apresentação de um número qualquer desses de sinal realizado para não parecer que está só pedindo um dinheiro para comprar outra pedra. Há um acordo tácito entre quem finge o número e quem finge que dá o dinheiro pela apresentação: ambos fingem que é disso que se trata, de uma recompensa por um espetáculo disponibilizado – não é dar um trocado pra ficar livre daquela figura maltrapilha que o importuna, nem é pedir dinheiro pra usar droga.
Moleque preto pulando nem sempre é saci ou capoeira. Moleque preto pulando causa medo. Moleque preto provoca porque não tão nem aí pra ele. 

Vem cá, guri! Bora brincar, bora desenhar, comer doce, sorvete, elma chips e o que mais nos aprouver. Aquele moleque é da minha e da sua responsabilidade também. Ele estar na rua é uma tragédia para todos, aceitar isso é aceitar o nosso fracasso enquanto sociedade, naturalizar então é de um cinismo desprezível (como todo cinismo o é, mas este é um caso grave). Somos partes de um todo, seja um bairro, uma cidade, um país, uma humanidade. Este garoto é um sujeito de direitos como todos nós. Fechar o vidro quando ele se aproxima não resolve o problema, só aumenta a sua culpa (se você ainda tem jeito, é claro), só o faz sentir-se mais marginal, mais aberração, mais inimigo.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Realmente sempre foram muitas as ideias fora do lugar: a Constituição de 1824

(desculpem-me por algumas das referências, especialmente o Villa, na época não sabia nada sobre o rapaz)

A história das ideias no nosso país sempre foi marcada por um descompasso, um desacerto, uma contradição entre o pensamento e a realidade dos fatos. Quanto ao Direito, por exemplo, não é raro ouvirmos expressões semelhantes a “as leis no Brasil são muito avançadas, só não são cumpridas”, “o salário-mínimo da nossa constituição prevê um valor suficiente para bancar um tanto de coisa que na realidade é impossível”. Ou seja, as discussões gravitam ao redor de valores e referenciais típicos de realidades sócio-economicamente mais desenvolvidas, distintas da nossa.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A tornozeleira

Sexta-feira clássica, ele acorda (puto com o celular até lembrar que é sexta), levanta, escova os dentes, toma banho, camisa bacana, perfume gostoso (hoje tem happy hour) etc.
Trabalho, internet, trabalho, café, café, internet, trabalho, conversa, e-mail, trabalho, já chega, falou.
Boteco, cerveja, galera, caipis, joga conversa fora, pega de volta, fala, ouve, ignora, mata o tempo.
Um panfleto na mesa e ele pensa: eu vou nessa parada. 
Galera, tô cansado, amanhã tenho compromisso, tô indo, abraço!
Cansado do mesmo e das mesmas pessoas, achou uma ótima oportunidade ir, sozinho, naquela festa rock, num lugar escuro, no qual as pessoas ainda fumam tranquilas e não sorriem pra parecerem felizes, além de não tirarem fotos o tempo inteiro.
Chegou lá.
Tava massa.
Como havia imaginado.
Só não havia imaginado aqueles olhos atrás daqueles óculos.
A moça pintara a pálpebra e ressaltou um mistério, uma intimidação convidativa naqueles olhos. Ao cruzarem os olhares, rolou (talvez tenha rolado) uma empatia descompromissada.
Ela exibia coturno, camiseta e tatoo.
Um “Red”! Vou lá. Mas falar o quê?
“O que que essa maravilha está fazendo aqui sozinha” com certeza não iria rolar.
Pensa.
Pensa.
Eureca!
Coragem. No máximo é um “não”.
Querendo impressionar, mandou um: O que você pensa sobre o imperativo categórico kantiano?
Ela solta um sorriso com um misto de deboche, desprezo, impaciência simpática.
A moça disse que a única moral que fazia sentido pra ela era a do super-homem nietzschiano, bem como achava, tipo o Raskólnikov do Dostoiévski , que era preciso não ser piolho, que o que você acha certo não é o que você realmente acha certo etc.
O papo continuou, quase um Eduardo e Mônica, tava ruim, mas tava bom.
Pelo menos ninguém perguntou o que o outro fazia, onde morava, o time, o filme, o ator, blá, blá, blá, falaram sobre coisas existenciais, as quais realmente são importantes, afinal, o que interessa senão tentar entender a existência?
Vamos andando?
Como assim “vamos”? Eu tô indo.
Pô, mas...
Tá. Bora. Mas não posso sair de um raio de 50 metros daqui.
?
Beleza.
Subiram num “Califórnia”. Sempre tem um Califórnia por perto.
Não precisa de detalhes. Isto não é um conto erótico. Mas foi tudo lindo.
Apenas cumpre ressaltar que num momento canela com canela o rapaz sentiu um arranhão de algo metálico. Ela tinha uma tornozeleira diferente. Bem diferente.
Vamos marcar depois... seu telefone...
Também gostei muito. Não tenho telefone. Pediu a conta?
Agora, às sextas-feiras à noite, o nosso personagem anda pelos bares existentes naqueles 50 metros.

No resto tempo pensa no porquê da tornozeleira e no papo e entende tudo, sem entender nada. 
(Imagem meramente ilustrativa)


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Balada d`as três mulheres do sabonete Araxá: estética e mercadoria



Discutindo e atualizando aspectos das relações de troca e consumo realizados por Karl Marx, Wolfgang Fritz Haug apresenta em Crítica da estética da mercadoria, de forma sintética, os estímulos utilizados pelo capitalismo comercial no incentivo ao consumo fetichizado. Em nossa análise do poema Balada das três mulheres do sabonete Araxá, de Manuel Bandeira, identificamos o movimento de redução formal e estética, possível à poesia, realizadas pelo poeta e que dialogam com a análise de Haug. Este artigo buscará realizar uma discussão entre as duas construções.
Uma análise mais simples, restrita ao que está explícito no corpo de suas poesias, pode levar o leitor dos poemas banderianos a entendê-los demasiados inocentes e superficiais. No entanto, é preciso ir além no sentido de buscar sua profunda sensibilidade. Segundo Arrigucci (2000), nos livros Libertinagem (1930) e Estrela da manhã (1936), do qual faz parte o poema de nosso estudo, Bandeira havia atingido a maturidade poética, tendo construído um modo inconfundível de dizer as coisas que pretendia (...) desperto para o mundo em torno.(p.11), além de representarem sua maior adesão ao modernismo, anunciada anteriormente em outros livros.
No livro intitulado O cacto e a ruína, Davi Arrigucci (2000), antes de iniciar a análise do poema a que se dedica, faz um preâmbulo contextualizando Bandeira e o momento em que vivia. O crítico ressalta a perplexidade do poeta frente às transformações que marcavam o ingresso do Brasil na modernidade, com todas as contradições de sua realidade periférica - o país que já nasceu moderno. O momento vivenciado por Bandeira

Correspondia a diversas transformações históricas da sociedade e a determinadas aspirações de classe, de certas camadas mais avançadas da burguesia, nas duas primeiras décadas do século XX, num país que começava a industrializar-se, a urbanizar-se e a viver os problemas materiais e os conflitos ideológicos do mundo capitalista, agravados pelos desequilíbrios internos do desenvolvimento histórico e das desigualdades sociais. (ARRIGUCCI, 2000, p.13).

Arrigucci afirma ainda que verificar a articulação entre texto e contexto é o meio de compreender a profundidade e a peculiaridade da poesia de Bandeira no momento de definição de seu estilo, especialmente no que reflete e refrata a modernidade e seus novos rumos. Sua poesia faz a justaposição de elementos das mais diversas fontes, com inovações inusitadas, fazendo constar no poema objeto de nossa análise mulheres que são ao mesmo tempo lascivas, doiradas borboletas, três Marias, sem, no entanto, deixarem de ser apenas um retrato numa embalagem de sabonete. Arrigucci (2000) explica que
Bandeira revela desde logo as antenas sutis que possuía e fora afinando para captar uma poesia difusa no mundo das pequenas coisas do dia-a-dia, recolhendo elementos de contextos diversos, que ele aprendeu a considerar, aproximando-se do que até então não era tido por poético (p.17).

A percepção do poeta ao absurdo a que chegara a propaganda capitalista na busca da sedução do consumidor e a forma que mistura prosa, ditos populares e resquícios da poesia tradicional justapostos sob o título de balada, exemplifica a capacidade de captação dessas antenas ao mundo em que está envolto e a materialização estética e formal em poesia do que antes não poderia ser assim chamada, sendo assim temos poemas “feitos com palavras de todo dia, tirados do cotidiano mais corriqueiro, do mundo mais prosaico, conseguem, no entanto, conter, condensadas, a máxima complexidade e a emoção mais alta (ARRIGUCCI, 2000, p.19). O caminho aberto por Baudelaire na lírica moderna, rompendo com as separações categóricas de sublime e grotesco, prosa e poesia, dentre tantas outras, é trilhado de forma brilhante, inovadora e brasileira por Bandeira.
Arrigucci esclarece a importância das artes plásticas para a poesia e demais artes modernas, tendo sido, de certa forma, a ponta de lança das vanguardas modernistas. Nesse sentido, é interessante observar que a inspiração do poeta parte de um possível quadro, cartaz que reflete a imagem das mulheres do Sabonete Araxá, esta imagem é captada pelo poeta e refratada no poema.
 
Com efeito, ela parece tender, por meio de certos procedimentos de construção, para um tipo de poema que se diria imagético ou pictórico, avizinhando-se das tendências cubistas e surrealistas (mediante a redução estrutural ou a percepção simultaneísta, ou ainda, através da montagem surreal de elementos insólitos em contexto dissociado, onírico ou absurdo) no uso do verso livre, já a essa altura perfeitamente dominado e incorporado pelo poeta que levara anos no exercício de aproximação a esse novo tipo de verso. Depois, na constante tendência à extrema simplificação que parece ter presidido à organização formal da linguagem, submetida à mais completa poda, num claro esforço de redução do discurso lírico às palavras essenciais ao assunto (ARRIGUCCI, 2000, p.28).

Ainda sobre as inovações presentes na poesia do período, Antônio Candido, no ensaio intitulado A revolução de 30 e a cultura, esclarece que

Nas artes e na literatura foram mais flagrantes do que em qualquer outro campo cultural a “normalização” e a “generalização” dos fermentos renovadores, que nos anos de 1920 tinham assumido o caráter excepcional, restrito e contundente próprio das vanguardas, ferindo de modo cru os hábitos estabelecidos (CANDIDO, 2006, p.223).

Nesse mesmo ensaio, Candido (2006) complementa

Na poesia a libertação foi mais geral e atuante, na medida em que os modos tradicionais ficaram inviáveis e, praticamente, todos os poetas que tinham alguma coisa a dizer entraram pelo verso livre ou a livre utilização dos metros, ajustando-os aos anti-sentimentalismo e à antiênfase. Os decênios de 1930 e 1940 assistiram à consolidação e difusão da poética modernista, e também à produção madura de alguns dos seus próceres, como Manuel Bandeira e Mário de Andrade (p.225).

É esse quadro que mistura sensualidade, amor, mercadoria, ternura e vulgaridade que está pintado n`As três mulheres do sabonete Araxá, poema da maturidade de Manuel Bandeira capaz de ilustrar a alta elaboração formal e a sensibilidade aguda do poeta ao cotidiano local-universal no qual vivia.
Iniciamos a análise do poema pelo título, que traz a palavra balada como quem quer dizer: isso que segue abaixo é um poema, ainda que não pareça. Quer dizer ainda que trata-se de um tipo de poema suave, lírico, uma declaração de amor as três mulheres do sabonete Araxá. Tal indicação causa de imediato um estranhamento, um questionamento à veracidade desse sentimento já que, numa visão tradicional, não se pode amar três mulheres ao mesmo tempo. Ainda sobre o nome balada, a necessidade de constar no título indica, de certa forma, uma “etiqueta” de identificação, uma classificação prévia que para o leitor tem duas implicações possíveis: o direcionamento da sua interpretação, uma predisposição para uma leitura amena, quase uma ode as tais mulheres ou uma departamentalização, uma categorização do produto a ser consumido, facilitando sua localização na prateleira literária. Este último aspecto expressa uma maior relação com a análise do poema como um todo, evidenciando, pela forma, a crítica mordaz que o poeta faz à intensificação do processo de alienação capitalista em que tudo é mercadoria: de mulheres a poemas.
Ainda com relação ao título, quando coloca como conectivo entre as três mulheres e o sabonete a preposição “do” está sendo estabelecida uma relação de posse entre este e aquelas, o Sabonete Araxá é, portanto, o dono delas e, considerando a sociedade ocidental naquele momento já livre de regimes escravocratas, só é possível ter a posse sobre coisas e não sobre pessoas. Ciente desse processo de coisificação, o eu-lírico quer também possuí-las, para o que precisa comprá-las, o que é o grande nó do poema, pois como comprá-las de fato se a promessa do produto é uma impossibilidade?
Tentando imaginar o momento que originou a inspiração do poeta para tal criação, visualizamos Bandeira deparando-se com um cartaz, outdoor, embalagem, enfim algo de forte apelo visual capaz de invocar, hipnotizar o poeta. O recurso hipnótico, aliás materializado nas três mulheres, sempre foi característico das peças publicitárias da sociedade de consumo, que têm por grande objetivo seduzir o consumidor, não pelo que possa de fato oferecer a ele enquanto valor de uso, mas o fetiche do valor de troca, no caso, compre um sabonete e leve as três mulheres ou, para as mulheres, seja você também uma dessas mulheres usando o sabonete Araxá
Desse modo, consuma-se uma abstração: o valor de troca desligou-se também de cada necessidade particular ao se emancipar perante cada corpo particular de mercadorias. Àquele que o possui, ele concede um poder sobre todas as qualidades particulares, limitado apenas por sua quantidade (HAUG, 1997, p.24).

O dinheiro surge como facilitador das relações de troca, uma terceira referência quando da necessidade de entregar um bem de que não precise e receber por ele um outro do qual necessite (HAUG, 1997).  Apesar de já estar na era do uso do dinheiro enquanto ferramenta de intermediação das relações de troca, o poema não fala em valores monetários de forma explícita, mas retoma relações de troca direta entre os bens. A grande dificuldade para realização dessa troca é estabelecer uma equivalência entre as mercadorias disponibilizadas para o negócio. A primeira mercadoria oferecida pelo poeta é o “seu reino”, e qual seria o reino do poeta? Normalmente essa expressão, oriunda da obra Ricardo III, de William Shakespeare, “meu reino por um cavalo”, posteriormente tornado um dito popular no Brasil, é utilizada no sentido de: tudo que eu tenho por isso ou aquilo. O que tem o poeta senão a sua poesia? Está o poeta propondo entregar seu legado literário, sua inspiração lírica, todas as dores, visões e vivências propiciadas pela visão poética por uma vida de gozos ao lado das três moças, experimentar o “gozar a vida” que ao mesmo tempo é esquecê-la, é o não viver, penetrar no sono e acreditar que a verdadeira existência está no assistir (DEBORD, ANO).
Mas a proposta parece impossível, estaria o “proprietário” das três mulheres do sabonete Araxá disposto a trocá-las por isso? Não. Desesperado, oferece a sua mão-de-obra, sua vida, sua matéria, apresenta-se enquanto produto para ser possível de troca: Que eu vivo, padeço e morro só pelas três mulheres do sabonete Araxá! Mais uma vez, o poeta trabalha com o exagero, o que faz com que o leitor duvide da veracidade de sua afirmação, parece demasiadamente absurdo oferecer a vida por três mulheres desenhadas em um cartaz. Estaria o poeta ironizando a proposta do sabonete? Estaria exagerando em sua promessa para evidenciar o quanto é absurda e ilusória a promessa do produto? Certamente. A grande questão a que Bandeira chama a atenção no poema ao focar tão somente na imagem, na embalagem da mercadoria, é para o quanto esse movimento sedutor do capital é irreal, ridículo, absurdo, mas ao mesmo tempo naturalizado, encenado por consumidor e mercadoria no teatro da vida real, cada dia menos real, cada dia menos vida.   
Segundo Haug (1997), “a produção de mercadorias não tem como objetivo a produção de determinados valores de uso como tais, mas a produção para a venda’’ (p.26). Nesse sentido, o sabonete, ora produzido para higienização humana, torna-se a parte menos importante, o valor de uso da mercadoria descola-se quase que absolutamente do valor de troca, passando a importar apenas este último na venda da imagem das três mulheres é a riqueza abstrata, o valor de troca emancipado (p.28). A promessa do produto neste caso oferece ao comprador duas possibilidades: se mulher, poderá ter a pele e a beleza iguais à das mulheres ali desenhadas; se homem, poderá atrair aquelas mulheres usando o tal sabonete. “O valor de uso estético prometido pela mercadoria torna-se então instrumento para se obter dinheiro”, ou seja, o apelo estético passa a ser fundamental no processo de compra e venda “Quem domina a manifestação, domina as pessoas fascinadas mediante os sentidos’’ (HAUG, 1997, p.27).  
Outra marca da ironia do poema, construída pela contradição entre o dito e o sabido não explícito, está nas possibilidades que relaciona para “quem” seriam essas três mulheres. Como amar tanto, a ponto de sacrificar riquezas, regalias e a própria vida, algo de que nada se conhece? Pois a relação que têm entre si pode ser de amizade, amor, de irmãs; socialmente podem ter profissões extremamente divergentes: prostitutas, declamadoras, acrobatas. Essas profissões inclusive remetem à venda direta do corpo: prostitutas, serviços sexuais; declamadoras, voz e expressão para deleite da platéia; acrobata, músculos e imagem para contemplação do público que paga o espetáculo. Ainda utilizando o sabido não dito, faz menção as três Marias, três estrelas, estrelas estas que sempre foram fontes de inspiração lírica, mas no caso deixam a dúvida: são estrelas “celestes”, admiráveis e jamais atingíveis, ou estrelas “celebridades”, humanas, mas também inatingíveis? Fato é que as duas remetem a fetiches populares de desejos impossíveis, porém sempre cultuados socialmente e explorados inescrupulosamente pela publicidade.        
“A mercadoria ama o dinheiro” citação de Marx. Esse “amor” é o tipo de estímulo forte utilizado na busca da valorização das mercadorias, então
[...] um gênero inteiro de mercadorias lança olhares amorosos aos compradores imitando e oferecendo nada mais que os mesmos olhares amorosos, com os quais os compradores tentam cortejar os seus objetos humanos do desejo. Quem busca o amor faz-se bonito e amável (HAUG, 1997, p.30).

O amor do produto pelo dinheiro do poeta, bem como pelo dinheiro dos demais indivíduos da sociedade, está manifesto na expressão das sedutoras moças do cartaz. E aí misturando “todos os gostos,” apresenta para regozijo do comprador os diversos tipos femininos que permeiam a fantasia do masculino nacional: brancaranas azedas; mulatas cor da lua; celestes africanas. Certamente por alguma delas se terá interesse ou, como é o caso do eu-lírico em questão, interessa-se pelas três, materializando também uma outra diretriz capitalista: é preciso consumir em grandes quantidades.
Sobre o processo de transubstancialização da mercadoria, Haug (1997) explica-nos também
As mercadorias mesmo têm um desempenho bem menor daqueles que realmente deveriam ter, até mesmo no sentido imanente ao sistema; se não oferecesse ininterruptamente aos compradores a ideologia da felicidade, as mercadorias dificilmente suscitariam o sentimento da felicidade. O seu conteúdo de realidade torna-se cada vez mais sutil, e vê-se então que o mundo das mercadorias chegou a um ponto no qual simplesmente precisa romper com a realidade (p.47).

Esses movimentos ficam claros na construção banderiana, um quase mantra, a expressão as três mulheres do sabonete Araxá aparece 8 vezes em um poema de 19 versos. Assim como a publicidade cria a necessidade pela exposição incansável dos consumidores a determinado produto (presentes em todas as mídias possíveis), o eu-lírico manifesta a percepção da utilização dessa estratégia e a impõe ao leitor, demonstra assim sua fascinação e tenta convencê-lo a também desejar as tão exaltadas mulheres.
Outro trecho que chama atenção no poema
Se a segunda casasse, eu ficava safado da vida, dava pra beber e nunca mais telefonava.
Mas se a terceira morresse...Oh, então, nunca mais a minha vida outrora teria sido um festim!

Se a segunda casasse, o sujeito do poema faria o que o dito popular orienta “dava pra beber e nunca mais telefonava”. Utilizando o pretérito imperfeito do subjuntivo - “se a segunda casasse” – e ainda o pretérito imperfeito do indicativo - “dava”, “telefonava” – num tom coloquial, esses tempos verbais, ao mesmo tempo em que são a expressão de desejos, deixam em dúvida tais afirmações. Quando comenta a possibilidade da morte da terceira mulher faz uma confusão da lógica temporal com as flexões verbais apresentadas. “Nunca mais”; “teria sido”, “outrora”, conflitam-se na tentativa de construção do raciocínio. Quando diz-se “Nunca mais” está se fazendo menção a algo futuro, mas o poeta está se referindo ao passado de sua vida. Então Teria sido, pretérito mais-que-perfeito, e outrora, também passado, que aparecem enquanto projeção da história do sujeito da enunciação são inverdades, uma imaginação, uma criação moldável pelo presente. Mais uma vez o poema está questionando a bipartição do sujeito moderno entre vida vivida de fato e a projeção desta mesma vida criada de “fora para dentro”, na qual o indivíduo é convencido de uma felicidade, de uma existência que não tem. Mercadoria e mercado intensificam o processo de rompimento com a realidade criando uma outra. Nesta, viver é deixar-se seduzir por produtos, crer que o sentido da existência está no consumo e nas ilusórias realizações que este pode proporcionar - compre um sabonete e “tenha” três lindas mulheres. O poema a discute de forma confusa, como confuso é separar realidade de imaginação na sociedade de consumo, a poesia deixa ver essa esquizofrenia social ora naturalizada pela publicidade e demais instrumentos do capitwal.       
Segundo Michael Hamburguer (2007), em A verdade da poesia, “o objetivo dos poetas, pois, é “dizer verdades”, mas de maneiras necessariamente complicadas pelo “paradoxo da palavra humana” (p.56). Essa análise não tem a pretensão de desvendar a “verdadeira verdade” do poema, mas busca, a partir do elementos formais e contextuais, trazer à superfície as “verdades” percebidas por Bandeira em outra simulação que é a propaganda. Neste poema temos portanto um objeto estético que utiliza imagens, sons, figuras de linguagem e um eu-lírico fingido, desmascarando, ao fingir que acredita na máscara, a ilusão sedutora imposta pela publicidade que coisifica mulheres e as vende em embalagens de sabonetes, transforma relações humanas, inclusive a mais sublime que seria o amor, em negócio. Concluindo esta análise, citamos Karl Marx, em seu estudo intitulado O dinheiro
Suponhamos que o homem seja homem e que sua relação com o mundo seja humana. Então, o amor só poderá ser trocado por amor, confiança, por confiança, etc. (...) Todas as nossas relações com o homem e com a natureza terão de ser uma expressão específica, correspondente ao objeto de nossa escolha, de nossa vida individual real. Se você amar sem atrair amor em troca, isto é, se você não for capaz, pela manifestação de você mesmo como uma pessoa amável, fazer-se amado, então seu amor será impotente e um infortúnio. (Marx, 2004)


Referências bibliográficas
ARRIGUCCI,
BANDEIRA,
CANDIDO, Antonio. “A Revolução de 1930 e a cultura”. In: A Educação pela Noite. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006
HAMBURGUER, Michael. “A verdade da poesia”. In: A verdade da poesia. São Paulo:  Cosacnaify, 2007.
HAUG, Wolfgang Fritz. “Primeira parte”. In: Crítica da Estética da mercadoria. São Paulo: UNESP, 1997.

MARX, Karl. “O dinheiro”. In: Manuscritos econômicos-filosóficos. São Paulo, Boitempo, 2004.